a prepotência do cuidar

Tema prepotente, não é mesmo?

Cuidar baseado na demanda de quem?

Você já sabe que fui enfermeira por 35 anos. Desde que me entendo por gente, queria “cuidar de gente”. E nestes 35 anos, aprendi muitas formas de cuidar.

Leonardo Boff (1999) defende a opção pelo cuidado. Cuidar, como ele diz, é mais que um ato, é uma atitude de preocupação, de responsabilidade e de envolvimento afetivo com o outro. As pessoas, não possuem somente corpo e mente, são seres espirituais.

Quando decidi fazer o Mestrado, foi por estar incomodada com o resultado deste “Cuidado”. Eu achava que cuidava muito bem, mas as famílias que eu cuidava não internalizavam este cuidado tão necessário em relação à “doença crônica e hereditária” pela qual passavam.

Mas vejam bem – era o meu ponto de vista – e passei a questionar: baseado na demanda de quem?

O cuidado e a fenomenologia

Então conheci a fenomenologia e Martin Heideger – Heidegger abordou o cuidar a partir de uma concepção ontológico-existencial, atrelado apenas na existência do homem no mundo sendo o mesmo compreendido enquanto-ser-no-mundo. O mundo que a fenomenologia é, sobretudo, o mundo humano. Sendo assim o homem só existe enquanto ser-com-outros. É por isso que para a fenomenologia do cuidar, existir é cuidar de ser; é cuidar de ser-si-mesmo e cuidar de ser–com-outros; é a existência na coexistência, modo como o ser se preocupa com os outros.

E desde então tem sido uma experiência incrível deixar o Ser se desvelar, desprovida de julgamento e crítica. Nesta ocasião um novo olhar se descortinou para mim. Passei a olhar para o outro de outra forma.

Cuidado e Prepotência

A maioria de nós, profissionais da saúde, nos consideramos “donos” do cuidado. Ou seja, achamos que, por termos estudado, sabemos mais do que o próprio sujeito que demanda cuidado.

Olhamos para o problema, para a doença, e não para a pessoa. Não sabemos, ou esquecemos, que a doença está a serviço da saúde. Ela é uma forma de nos comunicar que está pedindo ajuda. Que algo não vai bem.

Neste sentido somos prepotentes. Achamos que sabemos o que é melhor para o outro. Sem deixar que se ser se desvele, ou que ele seja.

Autoconhecimento

Após encerrar meu ciclo como enfermeira e enveredar pelos caminhos do Autoconhecimento, tenho descoberto, nos últimos 5 anos, muitas outras formas de cuidar. O cuidar presente, aceitando o outro como ele é, sendo apenas um instrumento para sua auto-cura.

Aprendi que sou 100% responsável por tudo que me acontece, assim como você. Que todos temos escolhas e infinitas possibilidades. Que cada um de nós é um co-criador de sua realidade.

Esse cuidado do ser como ele é, acompanhando-o em sua caminhada rumo à sua essência, ajudando-o a se reconectar com o Ser Divino que já foi um dia, é livre, é onipresente, mas não prepotente.

Então, como cuidar? Qual o caminho?

Autoconhecimento e Desenvolvimento Humano. Aprendo todos os dias. Ouvindo o que o outro está me dizendo e sendo quem sou e deixando que o outro seja. Orientando-o na busca de encontrar suas respostas dentro de si. Me tornando um ser melhor.

Como diria o psicanalista e poeta Rubem Alves, escutando bonito. Escutando a mim, minhas inspirações, meu corpo, e o ser que me fala, seus sinais, seu corpo e até porque não, a doença. Pois “quando a boca cala, o corpo fala”.

“O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção.” (Rubem Alves)

Quanto mais me conheço, mais me curo e mais me potencializo para ajudar você a se curar.

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