A minha formação como enfermeira, em uma das melhores universidades públicas deste país, foi focada no cuidado, na assistência direta ao paciente. Isto há 36 anos atrás. Nesta época nem existia TCC como conclusão de curso.

Não tive muito enfoque, durante a graduação, em pesquisa ou administração/gestão. Confesso que não senti falta, na época, pois minha paixão era cuidar, estar com as pessoas, à beira do leito. Nem queria saber de administração.

Mas com o tempo aprendi que não dá para atuar na saúde sem fazer gestão. Mas só quando precisei, vários anos depois, assumir um cargo de gestão, fui de fato me interessar em estudar gestão, gerenciamento e todas as suas ferramentas.

A princípio pensei que estava me afastando do meu foco principal, o paciente, aquele que era o motivo da escolha da minha profissão. Mas um dia li uma frase, não me lembro mais onde, que me despertou: “Enfermeiro satisfeito é igual a paciente bem cuidado”. Acredito que serve para todos os profissionais, e não só para os enfermeiros.

Então entendi que como gestora, eu devia cuidar das pessoas que cuidavam de outras pessoas. Se estas pessoas, os profissionais, estivessem bem instrumentalizados, com a competência adequada para a função que exerciam e ainda por cima satisfeitos e realizados, minha missão estaria cumprida.

Tive “chefes” (pois não posso chamar uma pessoa assim de líder) que insistiam que o gestor (no caso eu) deveria estar à beira do leito, prestando assistência também. Isto é possível? Em alguns casos sim, dependendo da área de atuação.

Porém, na enfermagem isto não é muito viável. O contingente de pessoas e processos para gerir é muito complexo e amplo. O gestor precisa cuidar das pessoas que estão cuidando de outras. Ouvir estas pessoas, prestar atenção nelas, se importar com elas, de fato “cuidar” delas.

Vejo muitos gestores preocupados com o controle de seus colaboradores, com os indicadores, índices de qualidade, etc. Mas nem um pouco preocupados com a realização pessoal e profissional destas pessoas. Como podemos pregar uma assistência humanizada se formos desumanos com quem cuida?

Ah, mas eu não sou gestor, você pode estar pensando, estou na assistência, graças a Deus. Aí que você se engana. Todo profissional da saúde deve ser um gestor do cuidado. Mas o que vem a ser isso, você deve estar pensando.

Gerir o cuidado vai desde cuidar e organizar a equipe sob sua orientação – pode ser um técnico de enfermagem ou de farmácia ou de nutrição – dependendo de sua área de atuação – pode ser a equipe de apoio como suprimentos, higiene, manutenção – deve cuidar dos equipamentos e materiais que você precisa para cuidar de seus pacientes, deve cuidar do ambiente de cuidado, para que seja agradável e leve, deve cuidar da sua capacitação técnica e de sua equipe – todo profissional tem o dever de se manter atualizado e à sua equipe – e acima de tudo organizar e planejar o cuidado do seu paciente e de sua família.

E quando falo em cuidado, falo de “care”, ou seja, se importar, se envolver, estar com o outro. Não simplesmente oferecer ao meu paciente aquilo que eu acho que ele precisa dentro do que aprendi, mas ouvir dele o que ele precisa, qual a sua demanda, que eu consiga atender dentro da minha área de competência como profissional e ser humano. Muitas vezes ele está internado para uma cirurgia, mas deixou filhos pequenos em casa, um trabalho informal onde não vai receber nada enquanto está internado e queremos saber somente de sua “saúde física”. Isto não é cuidar. Gerir o cuidado é se importar com tudo isso, é interagir com a equipe multiprofissional para encontrar as soluções de que nosso paciente precisa.

É não perder a visão do todo, do ser humano que se apresenta a nós, sem esquecer também de nossa humanidade. Ele às vezes veio de outro estado, não conhece ninguém aqui, não tem onde “lavar suas calcinhas”, também devo me preocupar com isto, se vou cuidar. Isto é gerir o cuidado.

Então, meu querido colega profissional da saúde, respondendo à pergunta título deste artigo, SIM, é possível cuidar sendo gestor e é NECESSÁRIO ser gestor ao cuidar.

Hoje sinto que cuido da alma das pessoas que cuidam de outras pessoas, realizando coaching e mentoria. Sim, é maravilhoso ver que as pessoas chegam para iniciar o coaching angustiadas, sofridas, confusas e saem totalmente transformadas, com a chama da paixão pela sua profissão e pela vida reativada, se redescobrindo, encontrando seus valores e sua missão.

Portanto, existem muitas formas de cuidar, mesmo não estando à beira do leito. Continuo cuidando de você, para que você se cuide e cuide bem do outro.

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